Entrevista AD Revista
Heloisa Faissol
Nascida em família rica e cunhada do compositor João Gilberto, Heloísa Faissol causa polêmica com letras sexuais
Heloísa Faissol tenta conquistar o público dos bailes funks cariocas, mesmo sendo de origem contrária à maioria dos artistas do gênero
Nascida em berço de ouro, no high society carioca, Heloísa Faissol contrariou todos os planos da família para uma típica moça rica e resolveu subir o morro para se tornar funkeira. Depois de estudar moda na França, voltou ao Brasil, onde trabalhou no segmento e agora, aos 38 anos, a bela carioca chocou a família e surpreendeu amigos ao compor e cantar a música Dou pra cachorro. "Ai, ai, ai, ai, ai/ Não para não tá bom demais/ ai, ai, ai, ai, ai/ Vem com tudo que eu quero mais/ Tô fervendo, tô no ponto/ Eu dou no primeiro encontro." Assim, sem nenhum toque de sutileza ou elegância, é a letra do pancadão composto por ela. Aos poucos, a cantora vem chamando a atenção, com matérias publicadas e participação em programas de TV como o Superpop, na RedeTV. A curiosidade em torno de Heloísa vem não só pela música, mas motivada por sua origem, totalmente avessa ao estilo das cantoras de funk cariocas que bombam nos bailes tomados por batidas fortes e sexualidade à flor da pele.
É justamente o fato de ter vindo da elite que dificulta um pouco a entrada de Heloísa no segmento, que tem seu ápice em regiões pobres, mesmo tendo conquistado, ao longo desta década, público formado por playboys e patricinhas. Tentando romper o preconceito, a neofunkeira tem conseguido conquistar a turma que pertence à raiz do movimento funk carioca.
DJ Marlboro, um dos precursores do estilo, já declarou que não vai tocar as músicas de Heloísa nos bailes que comanda. A declaração do veterano para a Folha de S.Paulo foi contundente: "É muita queimação de filme para o funk." Para ele, as letras sensuais são legitimadas quando feitas por pessoas de comunidades carentes, devido à realidade que vivem. Em entrevista exclusiva ao DMRevista, Heloísa rebate o veterano dizendo que o preconceito, da parte dele, não combina com a arte e que abstrai as críticas recebidas neste sentido.
O preconceito em razão da escolha por cantar funk deu as caras dentro da família de Heloísa Faissol, que a repreendeu ao tomar conhecimento de sua participação em bailes e do conteúdo das letras que compõe. A repercussão entre os parentes foi totalmente desagregadora, pois hoje só a irmã ainda conversa com ela. Confira abaixo entrevista com a cantora.
DMRevista - Como foi sua vida durante a infância e adolescência? Você tinha o estereótipo e padrão de vida da típica moça rica, de família tradicional?
Heloísa Faissol - Passei a maior parte da minha infância e adolescência numa casa linda, com jardim enorme, piscina com tobogã, quadra de tênis, salão de balé e cachorros. Meu pai conseguiu realmente construir um verdadeiro lar das maravilhas bem isolado e distante da realidade do meu País. Estudei numa escola semi-interna, bastante rígida.Tive sim um padrão de vida típico de moça rica, com aulas de piano, violão, balé, hipismo, natação e culinária.
DMRevista - O gosto pelo funk já vem de muito tempo atrás ou é mais recente?
Heloísa Faissol - O gosto pelo funk surgiu há alguns anos. É algo um pouco recente na minha vida e ele se deu em função do meu gosto pela escrita e pela vontade de me comunicar e ajudar as classes desprivilegiadas. Também surgiu por me identificar com a forma honesta, clara, simples e direta das letras de funk.
DMRevista - Antes de ser funkeira e estar nos palcos, qual era sua ocupação? Fazia outro trabalho artístico?
Heloísa Faissol - Antes de ser funkeira, fiz faculdade de dança e me formei em teatro também. Fiz cursos de Artes Plásticas e Moda, mas meu principal intuito era ser atriz, carreira essa que batalhei por muitos anos com todas as minhas forças. A música, o funk, era algo que fazia para me divertir. Escrevia quando estava tomando um chope com os amigos, mostrava para a galera, mas nunca achei que alguém poderia se interessar por elas. Até que fui fazer um teste num estúdio musical e resolvi levar umas letras para ver no que dava. O empresário que me convidou pro teste se amarrou nas letras e me incentivou a gravar o primeiro funk Dou pra cachorro, que em menos de um mês deu muito o que falar.
DMRevista - Como foi a reação da elite, de onde você veio, com os funks que canta agora?
Heloísa Faissol - A reação foi de choque total. Meus melhores amigos morreram de rir e me deram o maior apoio, mas alguns se afastaram por causa disso. Não liguei muito, acho que perdi o contato com alguns, mas ganhei outros muito mais interessantes, autênticos e humanos.
DMRevista - Você sofreu preconceito dentro de sua família?
Heloísa Faissol - Sofri, sim. Minha família até hoje não entende meu trabalho. Só tenho uma irmã que me apoia. Deixei de falar com todos por causa disso. Eles acham que eu apelei e no entanto tudo o que fiz foi escrever letras em cima de uma realidade que constato no dia-a-dia das relações humanas. Influenciada pelo sociólogo polonês S. Bauman, que explica que os pilares que sustentavam a sociedade caíram, eu quis, através de minhas letras, mostrar isso também. Mostrar que não existe mais ética, moral, espírito de família, educação, respeito, fidelidade e solidariedade. São temas que não têm classe social.
DMRevista - Seu cunhado, João Gilberto, manifestou algo a respeito de seu trabalho?
Heloísa Faissol - O pouco que soube através de uma funcionária que trabalhou pra ele e se tornou minha amiga é que ele não aprova. Talvez isso acontece por não compreender a dimensão das minhas intenções e do meu trabalho.
DMRevista - O que tanto lhe incomodava na alta sociedade que a fez sentir a necessidade de se enturmar com a comunidade dos morros?
Heloísa Faissol - Basicamente, a hipocrisia, pessoas criticando e discriminando o próximo como se fossem superiores, como se não errassem, como se fossem livres de qualquer fraqueza. Somos parte de um todo e acho que devemos fazer algo por isso.
DMRevista - E o pessoal que pertence à raiz do funk, como reagiu? Sua música já conseguiu subir o morro?
Heloísa Faissol - Graças a Deus minha música já está sendo tocada em vários bailes e a galera aderiu legal, mas sempre têm aquelas pessoas que criticam, afinal, vivemos no país dos falsos moralistas.
DMRevista - No dia-a-dia, você se veste de funkeira e ouve artistas do gênero?
Heloísa Faissol - O funk não é para mim um estilo de vida nem uma válvula de escape e sim uma forma de me comunicar, de interagir, não mudei meu jeito de me vestir, nem meus valores ou atitudes.
DMRevista - Já foi acusada de oportunista, por não ser originalmente do berço do funk e sim da alta sociedade?
Heloísa Faissol - Sim, o (DJ) Malboro, por exemplo, deu uma declaração na Folha de S.Paulo dizendo que entendia alguém da comunidade fazer uma letra com apelo sexual, mas eu não. Acho que o preconceito não combina com a arte, aliás, é antiarte. Por isso eu abstraio geral. Tenho direito de falar o que quiser nas minhas letras.
DMRevista - Você disse ter uma paixão secreta por Chico Buarque. Já rolou algo entre vocês?
Heloísa Faissol - Chico Buarque é um artista que admiro muito e acho que passei um bom tempo atrás dele porque precisava desse exemplo de admiração por um homem.